Com mais de 50 anos de carreira, Marina Abramovic marcou o mundo das artes com suas performances. Em uma das mais conhecidas, The Artist is Present a artista convida o público a sentar-se à sua frente, enquanto ela olhava silenciosamente em seus olhos. A obra parte da sua investigação sobre encontros humanos.
No Brasil, Marina foi tema de ampla exposição retrospectiva no Sesc Pompeia, em 2015, e, em fevereiro passado, inaugurou a escultura interativa Generator, na Usina de Arte, no interior de Pernambuco, feita a partir de sua pesquisa com pedras e cristais brasileiros.
Confira, a seguir, entrevista concedida por Marina Abramovic ao jornalista Jotabê Medeiros, publicada no Volume 2 da ELLE Decoration Brasil, em 2023.
La Divina
A mais controversa e desafiadora artista da performance da atualidade, Marina Abramovic inaugura na secular Royal Academy of Arts, de Londres, no próximo dia 23 de setembro*, uma das maiores retrospectivas já organizadas sobre sua obra e vida, remontando a meio século de provocações em aparições artísticas que forçam as fronteiras do relacionamento entre o artista e seu espectador, entre a arte e suas convenções. Nascida em Belgrado, na antiga Iugoslávia (hoje Sérvia), em 1946, Marina começou a chacoalhar o mundo a partir de 1976, quando conheceu o artista alemão Ulay (1943- 2020), com quem formou uma sólida parceria na vida e na arte. Separaram-se em 1988.
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Na iminência de completar 77 anos, ela demonstra preocupação com a ultradependência das pessoas em relação à tecnologia no mundo atual, o que a impeliu a criar uma série de workshops imersivos chamados Cleaning the House, que ela aplica no Marina Abramovic Institute (MAI). “Temos que parar de usar celulares, computadores, todas essas tecnologias que nos tornam inválidos porque não temos mais relação com nossos sonhos, nossa intuição, nosso subconsciente, a telepatia”, afirma. “Nos tornamos viciados em tecnologia e não usamos mais essas habilidades. Então, trata-se de voltar às raízes”, diz Marina.
Cenas da artista na ópera Seven Deaths of Maria Callas, em 2023. Foto: Mario Wurzburger/Getty Images
O método Cleaning the House consiste em pedir aos participantes que deixem de lado seus smartphones e computadores. “Trocamos isso por exercícios simples de concentração”, conta. “Tem sido um workshop muito bem-sucedido e há muita gente na lista de espera, ansiosa para experimentar algo que é tão simples, mas que ao mesmo tempo ninguém mais está fazendo.”
Há alguns dias, em casa, Marina rompeu os ligamentos de um dos joelhos e teve de se submeter a uma cirurgia de urgência. Agora está preocupada em se recuperar a tempo para os compromissos em Londres no segundo semestre.
Se fôssemos parodiar Gay Talese, o papa do new journalism, poderíamos esboçar aqui algo como: “Marina Abramovic com o joelho machucado é como uma pista de esqui sem neve”. Mas isso seria completamente inverídico: a hiperativa Marina, mesmo sem poder andar, revela que está pulando pela casa com uma perna só para fazer as coisas básicas, segue com a agenda frenética (que inclui um conceito novo de ópera, no espetáculo Seven Deaths of Maria Callas) e ainda achou tempo para, deitada na cama, conceder via videoconferência esta entrevista exclusiva à ELLE Decoration Brasil.
Performance de The Artist is Present Foto: Andrew H. Walker/Getty Images
Protagonizada pela artista, a ópera está em turnê há dois anos pela Europa. Passou por Nápoles, Paris, Amsterdã, Barcelona e, em novembro, entra em cartaz na Performing National Opera, de Londres. A paixão de Marina pela Divina, como a cantora grega Maria Callas (1923-1977), considerada a maior soprano do século 20, era chamada, remonta à época em que a performer tinha 14 anos. “Eu estava sentada na cozinha da minha avó, tomando café. Ela escutava o rádio, e eu ouvi a voz daquela mulher… Me lembro de parar de comer na hora”, conta. “Fechei meus olhos, chorei, e eu não tinha ideia de quem tinha aquela voz até o locutor anunciar.”
Desde aquele momento, Marina passou a querer saber tudo sobre a soprano. “Nunca tive a chance de encontrá-la, mas ouvi todos seus discos, segui toda a sua vida, li todas as oito biografias e muito mais.” No meio dessa viagem, começou a achar interessante as semelhanças entre as duas. “Ambas tivemos mães difíceis, ambas somos sagitarianas. Nós duas tivemos uma incrível paixão pela arte e pelo amor e, a parte mais interessante, ela morreu por causa do coração partido.”
Maria Callas, que era casada com o magnata Aristóteles Onassis, foi abandonada pelo seu amor, que a trocou pela viúva de John Kennedy, Jacqueline. Atormentada, Callas teve um ataque cardíaco. “Eu também tive um momento em que quase quis ir por causa do amor, mas então meu trabalho me salvou.” Marina conta que levou 30 anos para concretizar a ideia de fazer uma obra sobre Callas. “Eu me dei conta de que toda personagem feminina de uma ópera morre no final e resolvi fazer uma montagem com sete mulheres mortas.” A ópera de Marina, uma atualização moderna da clássica linguagem operística, foi produzida em colaboração com produtores de Munique, Paris, Berlim e Nápoles. “É uma história sobre mulheres morrendo por amor. É uma abordagem muito, muito dramática, mas de um jeito novo.”
Performance de The Biography Remix Foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP via Getty Images
As performances de Marina, representada no Brasil pela Luciana Brito Galeria, têm provocado reações de todo tipo – algumas raivosas, outras de cunho conspiracionista ou até religioso. Isso desde o princípio. Em 1974, por exemplo, na instalação Rhythm 0, ela convocava a plateia a interagir livremente com ela mesma, da forma que o espectador quisesse, e isso terminou com uma arma apontada para sua cabeça, além de cicatrizes que ela carrega até hoje. Uma de suas intervenções, um jantar denominado Spirit Cooking, de 1996, a levou a ser chamada de “bruxa”, “satanista” e “luciferiana” por extremistas religiosos. Sites apócrifos tentaram estabelecer uma relação da artista com sociedades secretas, e fotografias suas, com a simbologia ocultista. Algumas das manifestações até estimulam ataques. Como ela responde a isso? “Simples: eu não me importo”.
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Não que as reações às suas performances, explica melhor a artista, lhe sejam indiferentes. A questão é que ela tem muita clareza da natureza do seu trabalho e não permite que o criticismo moralista mobilize sua atenção. “Meu trabalho dos anos 1970 era bastante criticado. Muitos diziam que eu deveria ser colocada em um manicômio. Outros, que eu provavelmente queimaria como uma bruxa da Idade Média”, lembra.
Foto tirada durante o ensaio de 7 Deaths Of Maria Callas, em 2023. Foto: Mario Wurzburger/Getty Images
“Eu não controlo o que as pessoas projetam no meu trabalho. Se não gostarem, podem me chamar de bruxa”, diz. “Não é importante se me chamam de avó ou bisavó da performance, o que quer que seja, não é o ponto.” Para Marina, como denominam sua obra não é essencial. “É mais relevante que você saiba do que ela trata. Eis por que a exposição na Royal Academy é importante”, explica Marina sobre as 12 performances em torno das quais está trabalhando, que tratam dos limites físicos do corpo em relação à natureza, à vida, num tipo de consciência e elevação do espírito. “Todos esses elementos estão ali”, pontua.
À pergunta sobre qual foi sua reação ao beijo que o dalai-lama deu em um garoto durante um evento público recente (em 1983, Marina dirigiu Avalokiteshvara, um curta-metragem com o dalai), ela responde: “Maravilhoso”. Em seguida, esclarece: “Quero dizer, em primeiro lugar, que eu respeito sua santidade, o dalai-lama. As coisas que os monges tibetanos fazem não têm o nome de performances. São chamados rituais, cerimônias”, diz, acrescentando que, de alguma maneira, são muito parecidas com o que ela preconiza, em especial porque “são algo que traduz o sentimento que o ser humano tem de expressar a si mesmo”.
Marina não evita nenhum tema, mesmo os mais espinhosos. Em 2016, ela visitou o médium João de Deus, em Abadiânia (GO), fez uma cirurgia espiritual com ele e essa experiência resultou em um documentário que rodou o mundo, Espaço Além: Marina Abramovic e o Brasil, dirigido por Marco del Fiol. Posteriormente, o médium foi denunciado por abusos sexuais e condenado a cerca de 200 anos de cadeia.
“Não entendo. Por que eu deveria me arrepender? Por ser curiosa a respeito da vida? Eu sou curiosa sobre tudo. Eu quero ver tudo que é possível ver em minha vida”, afirma. “Muito se tem falado sobre ele e suas cirurgias e o jeito como ele fez as coisas. Em primeiro lugar, eu não ouvi nem presenciei as coisas que dizem que ele fez. Portanto, não posso julgar. A minha cirurgia espiritual de fato me curou por dois anos. E depois (o problema) retornou. Mas a outra parte dele era de fato inaceitável e era algo que não era evidente na época em que estive lá. Mas negativo ou positivo, havia algo lá, com certeza.”
A política é um forte componente da vida social em todas as culturas. Ela, que durante muito tempo se manteve distante das noções tradicionais de política, por considerar que as ações de um artista já contemplam essa atividade, diz que isso mudou drasticamente depois de ter assistido o recente documentário sobre a vida e a obra de Nan Goldin, All the Beauty and the Bloodshed, de 2022, que julgou fenomenal. “Você pode de fato transformar alguém.”
Pouco tempo atrás, ela destinou recursos da performance The Artist Is Present, uma das mais festejadas dos últimos anos, às vítimas do conflito na Ucrânia, após a invasão russa. “Eu fiz manifestações de caráter político, como há pouco, sobre a guerra na Ucrânia.” Quando se pode elucidar como o poder age, ela crê, para manter a pobreza, a dominação, é possível mudar a opinião das pessoas, e isso é um ato político.
- *Esta reportagem foi publicada originalmente na edição impressa do volume 2 da ELLE Decoration.
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