Cacá Diegues morre aos 84 anos no Rio de Janeiro vítima de complicações cirúrgicas

 

Cacá Diegues: O Cinema que Encantou o Brasil e Iluminou Nossas Contradições

A morte de Cacá Diegues, aos 84 anos, não é apenas a partida de um cineasta genial. É o fim de um capítulo da história cultural brasileira, escrito por um artista que transformou luz, sombra e película em espelhos do Brasil — um país de festas vibrantes, desigualdades brutais e uma beleza que resiste, teimosa, à margem do caos. Diegues, um dos últimos gigantes do Cinema Novo, deixa um legado que transcende a filmografia: ele nos ensinou a olhar para nossas raízes sem romantismo e para nosso futuro sem medo.

Do Sertão ao Asfalto: A Jornada de Um Contador de Histórias

Nascido em Maceió em 1940 e criado no Rio de Janeiro, Diegues carregava em sua biografia a síntese do Brasil. Migrante interno, ele entendeu desde cedo que o país não cabia em um único lugar ou classe social. Seus filmes, como Bye Bye Brasil (1980), capturaram essa diáspora interiorana, seguindo saltimbancos pelo sertão em uma van chamada “Radiante Triunfo”. A obra, tão épica quanto íntima, não era só sobre artistas itinerantes: era sobre um Brasil em transição, onde a tradição colidia com a modernidade, e o povo seguia dançando mesmo sob o céu de chumbo da ditadura.

Foi essa capacidade de unir o popular e o político que fez de Diegues um pilastro do Cinema Novo. Ao lado de Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade, ele ajudou a construir um movimento que recusava o esteticismo vazio de Hollywood para filmar o Brasil real — não o dos cartões-postais, mas o das ruas, dos terreiros de umbanda e das senzalas simbólicas. Em Xica da Silva (1976), por exemplo, Diegues usou a história da escravizada que virou rainha em Diamantina para criticar, com humor e sensualidade, as hierarquias raciais e sociais que ainda nos assombram.

A Canção do Brasil: Música, Resistência e Identidade

Diegues não era apenas um cineasta: era um compositor de imagens que sabia ouvir o país. Em Veja Esta Canção (1994), ele transformou clássicos da MPB — de Chico Buarque a Dorival Caymmi — em pequenas histórias visuais, mostrando como a música é a trilha sonora de nossas vidas. Seus filmes eram permeados de sambas, baiões e marchinhas, não como adereço, mas como personagens. A música, para ele, era a voz do povo, um ato de resistência e memória.

Essa sensibilidade fez dele um mestre em retratar contradições. Em Tieta do Agreste (1995), adaptação da obra de Jorge Amado, Diegues misturou erotismo, comicidade e crítica social para questionar o moralismo hipócrita da elite nordestina. Seus personagens nunca eram heróis ou vilões, mas seres humanos complexos, cheios de desejo e ambivalência — como o próprio Brasil.

O Cinema Novo e o Brasil que Não se Apaga

A morte de Diegues coincide com um momento de refluxo na cultura brasileira. Enquanto o Cinema Novo ousava filmar com câmeras na mão e ideias na cabeça, hoje vemos uma produção audiovisual muitas vezes refém de algoritmos e patrocínios oportunistas. Diegues, no entanto, nunca perdeu a fé no poder transformador da arte. Em entrevista ao Jornal do Brasil em 2019, ele disse: “O cinema é a última fronteira da liberdade. Mesmo quando falamos do passado, estamos lutando pelo futuro”.

Seu último projeto, O Grande Circo Místico (2021), adaptado do poema de Jorge de Lima, foi um testamento dessa crença. Ao retratar uma família de circenses entre 1910 e 1930, Diegues celebrou a arte como refúgio em tempos sombrios — uma metáfora para o Brasil de todos os tempos.

Legado: Um Convite à Ousadia

Cacá Diegues não nos deixa apenas filmes. Deixa um desafio: como contar histórias brasileiras em uma era de polarizações e amnésias voluntárias? Como falar de Xica da Silva em um país onde o racismo ainda mata? Como filmar o sertão em tempos de seca cultural?

A resposta talvez esteja em sua própria trajetória. Diegues nunca fugiu das contradições. Abraçou-as, transformando-as em arte. Seu cinema não oferecia respostas fáceis, mas fazia perguntas urgentes. Em um país onde a cultura vive sob constante ameaça, sua obra é um lembrete: a imaginação é o último território invencível.

Adeus, Cacá. Suas lentes se calaram, mas as telas seguirão ecoando seu Brasil — plural, dissonante e irresistivelmente humano.

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