No Sermão da Planície, descrito em Lucas 6, Jesus não apenas ensina; Ele subverte. Diante de uma multidão de pobres, famintos e perseguidos, o Mestre não oferece fórmulas mágicas para escapar da dor, mas proclama que a felicidade está justamente naquilo que o mundo rejeita: na fragilidade partilhada, na fome de justiça, na capacidade de amar mesmo quando tudo é tirado. Esse discurso, ecoado pelo Papa Francisco em 2019, não é um consolo piegas. É um manifesto revolucionário que desafia nossa miopia espiritual e nossa cumplicidade com sistemas que perpetuam a desigualdade.
O Novo Moisés e a Lei da Solidariedade
Ao descer da montanha, como um novo Moisés, Jesus não traz tábuas de pedra, mas um código ético escrito na carne humana. Suas palavras — “Bem-aventurados vós, os pobres” — não romantizam a miséria. Elas revelam um lugar teológico: Deus está onde o mundo não quer ver. Ao constatar a realidade da multidão (Lc 6,17), Jesus identifica seus interlocutores: os excluídos, os que choram, os famintos de dignidade. São os mesmos que hoje habitam periferias, ocupam acampamentos, ou são invisibilizados por discursos de meritocracia.
O Papa Francisco, no Angelus de 2019, alertou: não confiemos nos “vendedores de fumaça”, aqueles que prometem felicidade através do consumo, do poder ou da indiferença. Jesus, porém, vai além: Ele não só denuncia os opressores (“Ai de vós, os ricos!”), mas expõe a raiz do mal — corações que se saciam enquanto outros passam fome.
A Bem-aventurança como Ação Política
Jesus não se contenta em chamar os pobres de “felizes”. Ele os declara herdeiros do Reino, invertendo a lógica de um mundo onde heranças são privilégio de castas. Mas como traduzir essa herança em gestos concretos? O texto sugere uma pergunta incômoda: de que lado estamos quando a história é escrita?
Os movimentos sociais, frequentemente satanizados pela mídia e pelas elites, são os protagonistas silenciados dessa narrativa. Enquanto líderes que lutam por reforma agrária, moradia ou direitos indígenas são criminalizados, figuras que perpetuam injustiças são enaltecidas como “visionárias”. A historiografia, muitas vezes, repete esse viés: canoniza os poderosos e apaga os mártires das causas sociais. Quem, afinal, lembra os nomes dos que foram assassinados por defender rios e florestas? Quem celebra os que compartilham o pão em vez de acumulá-lo?
O Escândalo da Felicidade Inconformista
As Bem-aventuranças não são um opióide para adormecer os oprimidos, mas um chamado à insurreição ética. Amar os inimigos, partilhar a túnica, oferecer a outra face — esses gestos não são passividade. São a recusa radical de reproduzir a violência do sistema. Jesus, despojado de tudo na cruz, manteve intacta sua liberdade de amar. Essa é a arma mais perigosa: uma solidariedade que desmonta, tijolo por tijolo, os muros da indiferença.
O Papa Francisco insiste: a esperança não está nos “profissionais da ilusão”, mas nos que veem a realidade com os olhos do Reino. Isso exige coragem para enfrentar perguntas incômodas: Por que líderes como Dorothy Stang ou Chico Mendes são mais citados do que imitados? Por que hesitamos em apoiar lutas coletivas, preferindo caridades paliativas? A verdadeira fé não cabe no conforto das doações dedutíveis no imposto; ela exige risco, envolvimento, até impopularidade.
Conclusão: Do Louvor à Luta
Jesus não fundou um clube espiritual para consolar aflitos. Ele inaugurou um movimento que desestabiliza o status quo. As Bem-aventuranças são um divisor de águas: ou nos comprometemos com os pobres — não como objeto de pena, mas como sujeitos de transformação — ou nos tornamos cúmplices dos “ais” destinados aos exploradores.
A felicidade do Reino não é um prêmio pós-morte; é uma semente plantada hoje na luta por justiça. Como escreveu Dom Pedro Casaldáliga, “o Evangelho é uma faca de ponta que corta as amarras da resignação”. Que não nos enganemos: Deus não está neutro. Ele está no grito dos que têm fome, no sonho dos que tecem redes de solidariedade, na coragem dos que, mesmo caluniados, não calam.
A pergunta final não é se seremos bem-aventurados, mas se temos a ousadia de viver como se o Reino já estivesse aqui — ainda que isso custe a nossa tranquilidade. Afinal, como lembra o Papa, a única felicidade que não desilude é a que nasce do amor que se doa. E amor, sabemos, nunca foi sinônimo de silêncio.
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